segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Beijo (Alexandre O'Neill)


Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo,
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de desejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Poema de António Botto

Almada Negreiros

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?

Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?

Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?

- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

António Botto

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Amigos - Camilo Castelo Branco

Amigos cento e dez, e talvez mais,
eu já contei. Vaidades que eu sentia!
Pensei que sobre a terra não havia
mais ditoso mortal entre os mortais.
Amigos cento e dez, tão serviçais,
tão zelosos das leis da cortesia,
que eu, já tanto de os ver, me escapulia
às suas curvaturas vertebrais.
Um dia adoeci profundamente.
Ceguei. Dos cento e dez, houve um somente
que não desfez os laços quase rotos.
- Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver...
- Que cento e nove impávidos marotos!
Camilo Castelo Branco